Tenho saudade de algo que nem sei bem o que é. Sinto saudade de um tempo, um sentimento, uma expressão que não tenho encontrado por aqui. Tenho saudades...
Mas a saudade não é tudo, há ainda algo que não consigo explicar. E mesmo quando tento organizar as palavras dentro da minha cabeça, em nenhuma língua consigo formar um significado ou algo coerente. Há pessoas que aceitam ou esperam por isso, eu apenas quero me livrar disso. Estou cansada e sem forças para sequer pensar a respeito. Já se foi toda a tinta que cobria as paredes desta casa. De tanto vento, fogo, frio e água, já se foi a alegria e a vivacidade das cores que outrora esbanjavam um algo significativo e esperançoso. Não há mais nada em quê acreditar nem mais músicas para ouvir. Tudo é um cheio de vazio inundado de insignificâncias e consumismo exacerbado. Não há mais porquês ou sorrisos, nem fé ou crianças para me atordoar. E tudo parece tão simples e complexo que sinto uma rajada de vento dentro da alma, que molha todos os pensamentos e os faz mofarem e racharem de tantas questões e perguntas não feitas. Não ao sentimento, e não também à insegurança do vazio. As letras circulam ao redor do meu mundo e as cores desbotaram de repente. As expressões e a vontade esvaíram-se na tentativa de sobreviver a qualquer custo e o custo foi alto demais.
O tempo escorreu cedo demais e tudo foi-se numa revoada negras de corvos por toda parte. Os gritos e gemidos, as vozes inaudíveis e as expressões cansadas e caladas de um mundo profano e inerte. A tecnologia e a mesquinhez por banalidades explodem no céu como fogos de artifícios negados por frivolidades. Não há um algo que iluminava aquilo que existia por dentro do vaso oco e rançoso envolto em pêlos que continha a vida larápia e sedenta de ilusões de outros tempos. Não há mais como compreender a inexistência desperta por trás de uma vivência morta, desacompanhada e cinza. Tudo gira e retorna ao início e o sentimento muda, apesar das palavras ainda permanecerem iguais. Os mesmos acordes por trás das montanhas de uma paisagem distante que parecia ser real no momento em que a luz ainda permanecia acesa, apesar da cálida dor da proximidade.
Uma cultura inorgânica de apetrechos, pinduricalhos e bichos macios que caem e fazem soar o tilintar de vozes e emoções. Existe uma saudade, uma vida, um algo.
Oculto e imperceptível, uma pedra renal que permanece durante todo o tempo de uma caminhada até a linha da vida. Chamas caladas na nevasca noturna sobre ares sufocantes, num lugar onde as chaves foram perdidas e os dados já não estão mais marcados. A surpresa e o domínio prevalecem sobre a mente insana num desvario de um suspiro contido num momento de prazer. O metálico apodrecido pela toxidade da pureza de uma flor caindo sobre as pedras afundadas no lodo.
E a pergunta sobre o porquê, o quê, como, onde, não será respondida por mim. Procure no fundo de uma piscina de significados o tesouro perdido por entre séculos de uma vida ainda não acabada por completo.
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